- Afinal, o que é aquilo em São Paulo?
Entre tímido e receoso, o anjo respondeu:
- Senhor, é o estádio do Pacaembu. Vai sediar uma final de uma competição internacional. O anfitrião está há 113 anos sem conquistar um título!
- Tudo isso! Como pode, pegue mais informações!, – determinou o Todo poderoso
Passados alguns minutos, o anjo trouxe toda a ficha: o time chamava-se Associação Atlética Ponte Preta, está sediada em Campinas e tem grande quantidade de fãs espalhada pelo estado
- Não é possível. Tanto tempo sem título e com tanta gente ao seu redor. Eu sinceramente não acompanho futebol. Tenho coisas mais interessantes para fazer. Mas esse parece ser um caso especial…- disse o criador da Terra, ainda sem entender o fenômeno.
Por duas horas, Deus, o todo poderoso, esqueceu de que deveria dormir e olhou as pessoas que chegavam: homens, mulheres, crianças, operários, comerciantes, advogados, engenheiros, pedreiros, marceneiros…Quanto mais os anjos lhe traziam as informações, mas a sua perplexidade aumentava. De repente passou a sentir algo diferente. Uma emoção gerada pela compaixão de verificar a devoção e amor daquele mar de gente.
Não pensou duas vezes e disparou:
- Prepare meus aposentados para depois. Eu vou acompanhar esse jogo.
Do alto de sua soberania, poder e onipresença, Deus por um instante focou seu olhar no estádio do Pacaembu. Sim, ele era sempre verdadeiro e confessou sua pouca familiaridade com o esporte. Não conhecia as regras, os jogadores ou mesmo o que estava em jogo. Mas a emoção, a comoção daquela massa humana de 29 mil presentes lhe tirou do sério. Acompanhou o primeiro tempo com atenção. Estranhou algumas jogadas ríspidas, ficou ressabiado com algumas marcações do juiz, mas ficou inerte. Tinha prometido aos anjos e auxiliares seu distanciamento com todo e qualquer esporte. Que tudo fosse decidido pelo esforço dos humanos. No primeiro tempo, cumpriu o prometido e presenciou o placar de 0 a 0. Não sabia fazer uma análise tática, mas Deus não desgrudava daquele povo. Não entendia porque de tamanha apreensão, aflição, sofrimento e desespero por causa do que ocorria no gramado.
Tudo mudou aos 12min do segundo tempo. O gol do Lanus feito de falta mudou o roteiro. Na decisão, em Buenos Aires, um empate seria suficiente para os argentinos garantirem a taça, lhe sopravam os anjos, nitidamente sem pudor ao torcerem pelo clube de camisa branca e preta.
O tempo passava e curiosamente Deus não prestava atenção no jogo. Subitamente, observava o choro de uma menina no colo do pai. Ou do adolescente agarrado na camisa molhada de suor e lágrimas. O que dizer então da senhora prostrada na arquibancada, que aos soluços apenas gritava: “Eu te amo nega véia. Eu te amo! Não vou te largar”.
Aquilo foi demais para Deus. Uma suspirada bastou para seu coração ficar amolecido. Após séculos, séculos e séculos, estava abalado e sem palavras. Sabia que era algo contrário as próprias leis determinadas por Ele, mas aos 33 minutos do segundo tempo quebrou o protocolo: ao ver Fellipe Bastos ajeitar a bola para a cobrança de falta, Ele, o Todo poderoso, apenas apontou o dedo para o gramado, gesto responsável por gerar um alvoroço entre os anjos:
- Ele não vai fazer isso, não é possível!
- Relaxe, ele já fez!
Os anjos sentaram e presenciaram: com seu dedo, Deus apontou na direção do goleiro Marchesin e com seu poder determinou seu congelamento. No gramado, o goleiro sentia algo estranho. Tinha explosão, reflexo apurado, sentido aguçado. Mas ao ver a batida ficou preso, estático no chão. Só o olho mexia, testemunha da bola balançando as redes.
Ato contínuo, Deus não resistiu e direcionou seu coração às arquibancadas do Pacaembu. Viu o sorriso da garotinha negra com um doce na mão ao lado da mãe. Ou jovens abraçados, pulando feito loucos e com satisfação por verem o empate aparentemente impossível.
Depois de tantas cenas maravilhosas e comoventes e com o apito final, Ele apenas olhou para os auxiliares e disse:
- Valeu a pena. Belo jogo. Mas vamos combinar. Não me digam quando será o próximo jogo. Posso cometer uma nova interferência. Não é de bom tom. Boa noite!
Os anjos despediram-se e chegaram a uma conclusão: aquela noite foi muito especial.
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