quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O dia em que Deus olhou para Ponte Preta

Deus estava de folga. Tinha reservado aquela quarta-feira para ver de longe os acontecimentos do planeta Terra. Mirou seus olhos na África e continuou preocupado com a fome. Viu atitudes de intolerância e preconceito na Europa e os velhos problemas dos Estados Unidos: consumo, consumo e consumo. Tudo parecia normal, dentro do previsto. Foi quando antes de se recolher resolveu dar uma olhadinha no Brasil. Com sua visão ampla, detectou uma movimentação estranha, única, singular. Chamou de lado um auxiliar e perguntou:
- Afinal, o que é aquilo em São Paulo?
Entre tímido e receoso, o anjo respondeu:
- Senhor, é o estádio do Pacaembu. Vai sediar uma final de uma competição internacional. O anfitrião está há 113 anos sem conquistar um título!
- Tudo isso! Como pode, pegue mais informações!, – determinou o Todo poderoso
Passados alguns minutos, o anjo trouxe toda a ficha: o time chamava-se Associação Atlética Ponte Preta, está sediada em Campinas e tem grande quantidade de fãs espalhada pelo estado
- Não é possível. Tanto tempo sem título e com tanta gente ao seu redor. Eu sinceramente não acompanho futebol. Tenho coisas mais interessantes para fazer. Mas esse parece ser um caso especial…- disse o criador da Terra, ainda sem entender o fenômeno.
Por duas horas, Deus, o todo poderoso, esqueceu de que deveria dormir e olhou as pessoas que chegavam: homens, mulheres, crianças, operários, comerciantes, advogados, engenheiros, pedreiros, marceneiros…Quanto mais os anjos lhe traziam as informações, mas a sua perplexidade aumentava. De repente passou a sentir algo diferente. Uma emoção gerada pela compaixão de verificar a devoção e amor daquele mar de gente.
Não pensou  duas vezes e disparou:
- Prepare meus aposentados para depois. Eu vou acompanhar esse jogo.
Do alto de sua soberania, poder e onipresença, Deus por um instante focou seu olhar no estádio do Pacaembu. Sim, ele era sempre verdadeiro e confessou sua pouca familiaridade com o esporte. Não conhecia as regras, os jogadores ou mesmo o que estava em jogo. Mas a emoção, a comoção daquela massa humana de 29 mil presentes lhe tirou do sério. Acompanhou o primeiro tempo com atenção. Estranhou algumas jogadas ríspidas, ficou ressabiado com algumas marcações do juiz, mas ficou inerte. Tinha prometido aos anjos e auxiliares seu distanciamento com todo e qualquer esporte. Que tudo fosse decidido pelo esforço dos humanos. No primeiro tempo, cumpriu o prometido e presenciou o placar de 0 a 0. Não sabia fazer uma análise tática, mas Deus não desgrudava daquele povo. Não entendia porque de tamanha apreensão, aflição, sofrimento e desespero por causa do que ocorria no gramado.
Tudo mudou aos 12min do segundo tempo. O gol do Lanus feito de falta mudou o roteiro. Na decisão, em Buenos Aires, um empate seria suficiente para os argentinos garantirem a taça, lhe sopravam os anjos, nitidamente sem pudor ao torcerem pelo clube de camisa branca e preta.
O tempo passava e curiosamente Deus não prestava atenção no jogo. Subitamente, observava o choro de uma menina no colo do pai. Ou do adolescente agarrado na camisa molhada de suor e lágrimas. O que dizer então da senhora prostrada na arquibancada, que aos soluços apenas gritava: “Eu te amo nega véia. Eu te amo! Não vou te largar”.
Aquilo foi demais para Deus. Uma suspirada bastou para seu coração ficar amolecido. Após séculos, séculos e séculos, estava abalado e sem palavras. Sabia que era algo contrário as próprias leis determinadas por Ele, mas aos 33 minutos do segundo tempo quebrou o protocolo: ao ver Fellipe Bastos ajeitar a bola para a cobrança de falta, Ele, o Todo poderoso, apenas apontou o dedo para o gramado, gesto responsável por gerar um alvoroço entre os anjos:
- Ele não vai fazer isso, não é possível!
- Relaxe, ele já fez!
Os anjos sentaram e presenciaram: com seu dedo, Deus apontou na direção do goleiro Marchesin e com seu poder determinou seu congelamento. No gramado, o goleiro sentia algo estranho. Tinha explosão, reflexo apurado, sentido aguçado. Mas ao ver a batida ficou preso, estático no chão. Só o olho mexia, testemunha da bola balançando as redes.
Ato contínuo, Deus não resistiu e direcionou seu coração às arquibancadas do Pacaembu. Viu o sorriso da garotinha negra com um doce na mão ao lado da mãe. Ou jovens abraçados, pulando feito loucos e com satisfação por verem o empate aparentemente impossível.
Depois de tantas cenas maravilhosas e comoventes e com o apito final, Ele apenas olhou para os auxiliares e disse:
- Valeu a pena. Belo jogo. Mas vamos combinar. Não me digam quando será o próximo jogo. Posso cometer uma nova interferência. Não é de bom tom. Boa noite!
Os anjos despediram-se e chegaram a uma conclusão: aquela noite foi muito especial.

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Fellipe Bastos comemora, Ponte Preta x Lanús (Foto: Marcos Ribolli)

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